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Os olhos da "Derrama" (pelos 300 anos de Ouro Preto) ABERTURA No espaço do campo, passa o homem e sua miragem. No espaço da cidade, dorme o homem em sua passagem. No espaço da consciência, gera o vírus a sua voragem. Por todos esses espaços, de surda força indomável, passa o espaço da palavra com sua selva sem margem. Na selva dessa paisagem, no centro de sua arena, age a força do poema, meu objeto selvagem. Imagem: Darlan M Cunha    Poema: Mário Chamie . Objeto Selvagem (poesia completa)
FERNANDO BOTERO (Colômbia) A BAILARINA, MINHA VIZINHA Quando ela entrou pela minha porta, tinha um desvairado semblante, algo de uma assassina em fuga, algo de devedor contumaz, algo de alguém cuja sombra lhe é só incômodo, porque foi assim que tranpôs a minha porta: sem prévio aviso, como aquele aviso que nos mandam quando vão nos despedir da beleza que é o nosso emprego, ou seja, entrando sem gritar e sem balbuciar, mas no seu olhar estava toda a enciclopédia de que eu necessitava para traduzir-lhe as nuvens carregadas. Sentou-se frente a mim, dando um leve peteleco na cesta de vime das frutas, levantou-se, foi à geladeira (para que servem as amizades reais ?), de onde trouxe um copo de tinto seco, e ainda de pé disse-me estar precisando de mim, com urgência e sob sigilo. Quase fingi que não cri, quase ri, mas sou elegante, e prezo as reais amizades, porque são poucas. Levantei-me também, e fui à geladeira, após o que ouvi-lhe o arrazoado: uma sequência de ru
FERNANDO BOTERO (Colômbia) ANIVERSÁRIO DO TÍMIDO O tímido é trabalhador de fazer boa construção ao bordejar a sintaxe do amor como se o abraçasse uma jibóia, e assim vai bordejando o amor como quem vai para longe ou como quem vem de longe, o tímido canta lígia e carolina, solfeja por ana e por outras, e se esborracha na rua ou na praça onde a banda apresenta-se à cidade submersa, ou imersa em sonhos (sempre legítimos são eles). No bojo da cidade vai o trem, o subúrbio é flecha longa, e o tímido tem uma namorada lá, e noutros lugares distantes, de onde tira tijolos para a construção do retrato em preto e branco de todo cotidiano cheio de sal e sol, de carne de sol na feira, porque a cidade tem de tudo o que os introvertidos e os extrovertidos necessitam para as fissuras de suas armaduras, e não há nada de paradoxal em sentir o que não se vê, e assim é que o tímido vê o mundo, mas de outro modo
FERNANDO BOTERO (Colômbia) (A)TEMPORAL No seu tempo havia tudo do seu tempo, de outros tempos também havia, mas disso poucos tinham consciência, porque, no seu tempo, a terceira pessoa do pretérito perfeito do indicativo do verbo passar tinha uma conotação diferente da de hoje, aliás, este verbo já não existe, isso porque, hoje, de nada mais se diz que "passou", justamente porque passa tão depressa que ninguém percebe; de nada se tem saudade, lembrança nenhuma, esta é uma Era de solidão, de urros e mur®os, de membros cuja paridade é a da ruindade extrema, do mais exacerbado egoísmo, que o mundo mudou de fato para melhor e para pior, no qual episódios podem ser encomendados com qualquer antecedência, principalmente se urgente for a encomenda, o pedido sai no mesmo instante, e logo estarás com a arma do teu premeditado crimezinho de pulha, com a tua pífia organicidade dando peidos, a pressão alterada por tanta agonia à espera da felicidade de cravar no Outro o que ele mer
PAMPULHA PEDRA DA LUA (para Toninho Horta ) Uma pedra caiu da lua rolando feito lágrima na rua a pedra lunar (de onde mais pode vir-nos o espanto ?) uma pedra caiu da lua sobre a arquitetura do choro no meio da rua, uma solidão igual à daquela pedra logo coberta de mãos (a educação pela pedrada) ouço choro de mães pelo que as pedras aos filhos fazem, ouve-se algum riso e muito espanto na rua onde caiu o mineral lunar, mas a um cão uivando para a lua não se presta tanto tento uma pedra rolou da lua até onde um músico limpava as unhas e os poros do mundo, no meio da rua cantou-se a pedra noventa, sim, de tudo se faz canção: horto e horta, jardim ou cinzas: quem mais cantará a pedra da lua ? Poema e foto: Darlan M Cunha (Toninho Horta tem uma música com esse título. SITE OFICIAL: http://toninhohorta.blogspot.com
IASNAIA POLIANA (a famosa propriedade rural do escritor Leão Tolstoi - autor de Guerra e Paz) UM ELO MAIS ATÉ O DESASSOMBRO uma casa sem muro, com muitos silêncios nas frestras, silêncios arados para deitarem normas no chão mais duro da esperança, muro real há nos seus mais ásperos trechos, que a vida é um muro sem antinomias nem antipatias menores, e passar por ele requer mais do que simples (a)versão de um idioma em relação a outro, mais que amor à primeira pista, pelo que o silêncio pode oferecer algo mais do que um copo de cólera a alguém numa varanda Texto: Darlan M Cunha    /   Foto: Maxiriska http://members.fotki.com/maxiriska/about/
NÃO EXATAMENTE / NOT EXACTLY Ela se acha com motivo para procurar pelos empuxos da ira, a raiva por alimento cheio de enxofre, necessita desta e de outras certezas, mais do que de misericórdia (entalem-se com a misericórdia os necessitados), e não se curva como se espera de uma compulsiva, melhor, impulsiva. Ela é quente, vive de macerar lamúrias e crestrar sorrisos que qualquer primeiro vento leva para longe; ela é de subir no trapézio e saltar de lá, como quem volta do mercado de pulgas, com a sacola cheia de velhas novidades: um palhaço numa tela a óleo, uma boneca de panos, um velhíssimo espelho de cristal (espelho, esfera minha), sim, é com essa que eu vou raspar a casca do dia, até o dia cair de borco no chão do esquecimento. 2. (Não toquem, não insistam em cadáveres, não digam, por exemplo, o britânico ; deixem isso para comentaristas esportivos, seu mundo miúdo de perpetuação do regozijo alheio que nada mais, há tempos, já não é senão cadáver geopolítico, embor
Музей Swarovski .Museu Swarovski MERCADO DE PULGAS Ali, uma boneca de trapos, talvez ainda com odores de onde veio, a chama de quem com ela se deitou. Ir à boca e ao estômago do domingo, às lesões do mercado de pulgas, lugar de sorrisos sobre o esmaecido de uma pintura e o fosco de uma peça de metal. É minha, levo essa, mas quero desconto. De pechinchas viver, mas será que estamos mesmo nos condenando cada vez mais e mais a colecionar ecos do Nada, ruínas ? Em frente, que atrás vem gente. Gostei dessa cadeira de vime, deixe-me olhá-la mais de perto. Alguma infância nela está, alguma velhice. Mas que beleza de instrumento. Meu avô materno tocava. Era alfaiate, e aqui tem muita roupa dos tempos antigos e novos, e até de épocas e feitios difíceis de se datar. Pulgas e pulgos. Um estojo de laca com borboleta desenhada na tampa, para jóias, lembranças e olvidos. Cardiopatia e fatias de gordura com sorrisos. Quem liga para a morte, em plena felicidade ? Vou levar, embrulhe. Texto: Darl
SANCTUARY Job Koelewijn PEQUENAS GRANDES SOMBRAS CASEIRAS o silêncio danificado agarra-se aos destrossos na sala de armas onde os teimosos  em sua cantiga de amigo e amiga não dão, porém, o braço ao silêncio transtornado Texto: DM C   /  Arte: Job Koelewijn
MULHER DE BICICLETA JOANES, SAPATO, IPITANGA   À beira dos rios Joanes, Sapato e Ipitanga, descarregou memórias e revigorou-se, ainda que indefinida tristeza o roesse. Voltou para casa com um novo canal aberto dentro de si por aquela presença líquida, morna e suave - que os conheceu próximos ao mar, nos seus últimos quilômetros. Guarda algo bom destes rios, algo assim como uma pausa num ensaio, uma ida à cozinha em busca de outro cafezinho (escritores agem assim), o término de uma cirurgia, quando a equipe médica retira-se para curar-se da exaustão, e assim por diante.Voltou com o sorriso dos rios e da gente amiga que o acolheu, e até hoje não desfez a mala. Hoje, reviu um destes rios num documentário, e lhe foi inevitável estar lá novamente, com os sentidos opressos, a química em desalinho, mas sempre há saída para o que é leve, e assim foi que pegou na memória e trouxe de lá peixes que nem os nativos e as nativas conhecem, é verdade, trouxe de lá peixes cuja visão
CICLISTAS ciclistas entranhados em estradas sem nexo palpável nada nelas mostrando destinos, nenhum dos trevos tendo menos de dez entradas, enganosas estradas, mas lá vão as ciclistas mundo afora pedalando com raios de sangue e veias  renovadas Texto: Darlan M Cunha / Tela: Ciclistas. Iberê Camargo http://www.iberecamargo.org.br/content/acervo/cielistas.asp
Rio Acima, MG Um copo de cólera contra a lavoura arcaica da existência seja o que se beba, e é por isso que ele preza que o total de sua vida esteja mal escrito, os caminhos e sub caminhos estejam mal delineados, números inexatos, nada de matemágica, melhor é a trágica petúnia de números com pernas menores do que o que dizem ser, enfim, baralhar o mundo, dar-lhe pancadas, que as pessoas são quase nada, e o melhor de tudo é por o boné lá onde não se possa apanhá-lo. Ou seja: o melhor é ir. Ir é o melhor remédio. Único. Texto e foto: DMC
A PLANTA DO MUNDO NA ARTE de ÂNGELA FELIPE Na raiz da fala e do silêncio está o Inconsciente, com mais ou menos presença, lá está ele. Exalando classe, apareceu-me a pintura de Ângela Felipe, uma arte fortemente ensolarada como a terra em que ela nasceu e vive, arte na qual se observa em boa parte o motor recorrente, ou seja, o Inconsciente como instância primeira, mas não deixado-o de todo à sua própria vontade, nada disso, pois nota-se que a força da técnica desta artista (consciente) não dá de jeito algum ao Inconsciente margem total de manobra. Uma arte que me lembra antiquérrimos ritos de fertilidade celebrados por práticamente todas as culturas, todos os povos, através dos tempos, com alusões sutis ou claras à vagina, ao falo, ao útero, a espigas, sementes, ao sol, ou seja, alusões a sinônimos inequívocos de fertilidade, renovação, ao que é sadio. Exemplo de sua visão do mundo através da sua arte está na tela Três Marias, na grande leveza que sai das cordas de uma viola que p
OS ANÉIS Ecos muito antigos saem de casa e vão às ruas celebrar a si mesmos os filhos e as filhas da Fertilidade, e nenhuma sombra ousa descer do céu, do céu da boca do inferno vem, largo, o sorriso pelas bodas. Texto: Darlan M Cunha Photo & Article: Jon Davies http://www.2camels.com/hounen-penis-fertility-festival.php
Alameda DARLAN M. CUNHA TRAÇOS É do mundo sujar-se com ritos de maldade, a verdade arrasta gente, mente quem diz que a rua é feia, saudade mata a gente ? giramundo é circo na mesa, chá de romã e licor de hortelã contra os sujos pulmões do mundo sobre a tua, a nossa vontade.
Rua Quimberlita. Santa Teresa, Belo Horizonte. CERTOS LUGARES Acontece da gente assentar-se nalgum lugar e nunca mais sair de lá, ou quase isso, porque foi agradável demais, marcante, mas não se marcante de modo ruim, pois a nossa defesa psíquica natural nos tira de lá, jogando para o fundo do Inconsciente tal desventura, tal dia, tal momento. E assim é que caso se olhe com atenção para dentro de si, a pessoa haverá de ver ou rever alguns lugares, em épocas diferentes, que lhe falaram alto .  Lembrei-me de uma música que diz: "E assim se passaram dez anos, sem eu ver seu rosto, sem ouvir seu nome." Foto e texto: Darlan M Cunha
LUGAR DE ENCANTOS Lugar de encantos é a boca na qual o meu consumo de drogas extravasa o compreensível (o amor tem infinitas drogas, dosagens mil), boca de forno, boca de fundo irreal, aquário no qual os peixes mais vivazes afogam-se, caleidoscópio onde nenhum acalanto me faz dormir é a boca do meu encantamento. Foto e poem a : Darlan M Cunha
FAMÍLIA Boca de arqueologia é a vida, mãos de conhecida analogia com a fartura de campos e seios, e o temor a deuses sequiosos de sacrifícios no alto das montanhas, rima das selvas, eis a boca da antiga civilização do meu pai, minha mãe, meus avós. Foto e poema: Darlan M Cunha
DA CÓLICA SOBRE A GRAMA, AO DESCANSO PELA MÚSICA Que seja assim a flora deste jardim a ser visto como se a tristeza não fosse um corte na realidade - nas outras realidades que seja então assim a raiz dessa fala que pouco se cala e arranca do Outro complementos para, talvez, sanar o desespero já tornado seio, lei e que fique assim o carmim deste convívio solar e de breu, ora um, ora outro, fora disso tudo é muito pouco, portanto fiquemos assim: um olhando o outro, vendo no outro a sua desdita de viver sem o outro. Foto e texto: Darlan M Cunha