Pular para o conteúdo principal
FERNANDO BOTERO
(Colômbia)























ANIVERSÁRIO DO TÍMIDO


O tímido é trabalhador
de fazer boa construção
ao bordejar a sintaxe do amor
como se o abraçasse uma jibóia,
e assim vai bordejando o amor
como quem vai para longe
ou como quem vem de longe,
o tímido canta lígia e carolina,
solfeja por ana e por outras,
e se esborracha na rua
ou na praça onde a banda
apresenta-se à cidade
submersa, ou imersa em sonhos
(sempre legítimos são eles).
No bojo da cidade vai o trem,
o subúrbio é flecha longa,
e o tímido tem uma namorada
lá, e noutros lugares distantes,
de onde tira tijolos para a construção
do retrato em preto e branco
de todo cotidiano cheio de sal
e sol, de carne de sol na feira,
porque a cidade tem de tudo o que
os introvertidos e os extrovertidos
necessitam para as fissuras
de suas armaduras,
e não há nada de paradoxal
em sentir o que não se vê,
e assim é que o tímido vê o mundo,
mas de outro modo é que o vê o extrovertido.


Texto: Darlan M Cunha   /   Arte: Fernando Botero

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

foi uma sensação sem punhos, sem lábios, indício algum de ter existido Quando será que na ocidental sociedade (porque nas outras sociedades, parece, este é um caso perdido, sim, pois nos fazem vê-las, a elas, como casos perdidos. Há sociedades em que as mulheres não têm nem mesmo um nome), repito : quando será que as mulheres não perderão seu nome de solteira após casarem-se - a não ser que o queiram perder, por livre e espontânea vontade, e não pelo arraigado costume de se reconhecer mais esta submissão a que foram e ainda são submetidas perante os homens, costume este que continua roendo-lhes os dias e vazando-lhes as noites ? (DMC) ****** Poema de Astrid Cabral (1936- , Brasil) O FOGO Juntos urdimos a noite mais seu manto de trevas quando as paredes recuam discretas em horizontes de além-cama e num espaço de altiplano rolamos nossos corpos bravios de animais sem coleira e juntos acendemos o dia em cachoeiras de luz com as centelhas que nós seres primitivos forjamos com a pedra las...

calmaria

  Uma calmaria aparente dentro da aldeia, sobre ela uma zanga de nuvens - mas não se deve levar nuvens a sério, por inconstantes - sina - e levianas feito dunas e seixos escorrendo e escorregando daqui pra lá, de lá para além-lá, feito gente nos seus melhores e piores dedos, entraves, momentos, encontros e despedidas. Um gotejo aqui e ali, mas outro tipo de gotejo num lugar da casa vai trazendo à cena o verso do português Eugênio de Andrade (Prêmio Camões 2001), decifrando a lágrima: " a breve arquitetura do choro ." Darlan M Cunha

alto & baixo

Barreiro - BELO HORIZONTE, MG * Todos fogem, querem mudança em sua mesmice, novos degraus com textos e tetos, de um modo ou de outro, sentem que a vida é minuto, frutas murcham depressa, animais logo estão cada vez mais sisudos e mal-humorados, e assim chegam às monstrópoles, às suicidades. * Darlan M Cunha