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MULHER DE BICICLETA











JOANES, SAPATO, IPITANGA

 

À beira dos rios Joanes, Sapato e Ipitanga, descarregou memórias e revigorou-se, ainda que indefinida tristeza o roesse. Voltou para casa com um novo canal aberto dentro de si por aquela presença líquida, morna e suave - que os conheceu próximos ao mar, nos seus últimos quilômetros. Guarda algo bom destes rios, algo assim como uma pausa num ensaio, uma ida à cozinha em busca de outro cafezinho (escritores agem assim), o término de uma cirurgia, quando a equipe médica retira-se para curar-se da exaustão, e assim por diante.Voltou com o sorriso dos rios e da gente amiga que o acolheu, e até hoje não desfez a mala.

Hoje, reviu um destes rios num documentário, e lhe foi inevitável estar lá novamente, com os sentidos opressos, a química em desalinho, mas sempre há saída para o que é leve, e assim foi que pegou na memória e trouxe de lá peixes que nem os nativos e as nativas conhecem, é verdade, trouxe de lá peixes cuja visão do mundo merece estar em livro.

"Cama boa era o rio", disseram-lhe os peixes, "e ainda é, pelo que hoje fazemos novas angulações com suas gotas, uma a uma, as quais recebem de nós o rumo, ou seja, uma situação exatamente contrária à que é natural, pois a água é que nos dava o curso", continuaram dizendo-lhe, "e foi assim que viramos a mesa, deturpando todo o natural, numa guinada de tal forma antideus, de tal forma suspicaz diante do imperativo nosso que é o de estarmos ao largo do mundo assassino moderno, que os darwinianos se esfalfariam de nos estudar". O mar quando quebra na praia nem sempre é bonito. Estes rios são veias baianas.

Quem dera pudessem todas as pessoas perceber um pouco do que é estar à beira de um rio, ao mesmo tempo em que se está indo para dentro de si, como aconteceu com a personagem desse texto, personagem que não conheço. Inventei-a, mas deve existir nalgum lugar algo ou alguém parecido.


Texto: Darlan M Cunha  /  Tela: Iberê Camargo

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calmaria

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A aldeia tem suas travas, e também seus vasos comunicantes, ou veias, a aldeia pulsa igual e diferente todos os dias, igual e diferente, atraindo todos os graus da vontade consciente e da curiosidade, as aldeias transformaram-se em monstrópoles e suicidades, e porque vieram para ficar, elas verão o fim do mundo. Darlan M Cunha