Pular para o conteúdo principal
E AÍ, TIO ? SOU GIRA, GIRA...





A CÁLIDA VINHETA DE UMA SOLIDÃO
(Aconteceu-me de eu estar a falar com alguém do outro time, num bar)

A criatura sai do seu ninho, de sua solidão
curtida feito cachaça a que se quer dar excelência,
dribla de leve o Grande Moinho e tenta vergar
a vontade que a Lei tem de cair-lhe nos costados;
sabe que a mãe de todos não o faz perder
o sono, só cócegas lhe dá, corgo sujo
a orillitas del canal
*
a Lei é só um mosquito no copo do facínora
que se passa por gente
de bem. Vê: ele
é teu cúmplice numa tréplica qualquer
ao governo, num banco
de metrô ele é teu motivo de riso e de crença
en la amistad (friendship), mas
seriam diferentes para ti as coisas
se notasses que quando ergue a saia na manhã
a assassina troca de mãos, muda
o modo de se vestir, de falar
e matar
que antes era asfixia mecânica ? Hoje, ela pega carona
nas técnicas oficiais, mas pega também
com deus para que de volta do colar citadino
uma opção lhe sobre
para então chegar
à casa, sabendo serem falsas em geral as menções
a si mesma - ouve-as a assassina
num bar com tevê, e tu ali ao lado dela, sem nada saberes
ouvir nem ler (quem não ouve, morto está),
ali, junto a ti e aos teus
iguais, tomando sol, toma seu vinho o descaminho.


DMC
*: da canção Balderrama, gravada por Mercedes Sosa.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

calmaria

  Uma calmaria aparente dentro da aldeia, sobre ela uma zanga de nuvens - mas não se deve levar nuvens a sério, por inconstantes - sina - e levianas feito dunas e seixos escorrendo e escorregando daqui pra lá, de lá para além-lá, feito gente nos seus melhores e piores dedos, entraves, momentos, encontros e despedidas. Um gotejo aqui e ali, mas outro tipo de gotejo num lugar da casa vai trazendo à cena o verso do português Eugênio de Andrade (Prêmio Camões 2001), decifrando a lágrima: " a breve arquitetura do choro ." Darlan M Cunha

alto & baixo

Barreiro - BELO HORIZONTE, MG * Todos fogem, querem mudança em sua mesmice, novos degraus com textos e tetos, de um modo ou de outro, sentem que a vida é minuto, frutas murcham depressa, animais logo estão cada vez mais sisudos e mal-humorados, e assim chegam às monstrópoles, às suicidades. * Darlan M Cunha  
foi uma sensação sem punhos, sem lábios, indício algum de ter existido Quando será que na ocidental sociedade (porque nas outras sociedades, parece, este é um caso perdido, sim, pois nos fazem vê-las, a elas, como casos perdidos. Há sociedades em que as mulheres não têm nem mesmo um nome), repito : quando será que as mulheres não perderão seu nome de solteira após casarem-se - a não ser que o queiram perder, por livre e espontânea vontade, e não pelo arraigado costume de se reconhecer mais esta submissão a que foram e ainda são submetidas perante os homens, costume este que continua roendo-lhes os dias e vazando-lhes as noites ? (DMC) ****** Poema de Astrid Cabral (1936- , Brasil) O FOGO Juntos urdimos a noite mais seu manto de trevas quando as paredes recuam discretas em horizontes de além-cama e num espaço de altiplano rolamos nossos corpos bravios de animais sem coleira e juntos acendemos o dia em cachoeiras de luz com as centelhas que nós seres primitivos forjamos com a pedra las...