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Talvez lhes falte sal, sono, um repto maior que a morte







Garbos constantemente incitava Judas contra mim. Aos poucos, o animal deve ter chegado à conclusão de que eu era o seu pior inimigo. A simples visão de minha pessoa era suficiente para fazê-lo eriçar-se como um porco-espinho. Seus olhos tornavam-se injetados, o focinho e a boca tremiam, e escorria espuma por dentre os seus colmilhos ameaçadores. Precipitava-se sobre mim com tamanho ímpeto que eu receava vê-lo romper a coleira de ferro que o mantinha seguro, embora ao mesmo tempo ansiasse por que ela o enforcasse. Constatando a fúria do animal e o meu próprio temor, Garbos costumava às vezes soltar Judas e, mantendo-o apenas pela coleira, fazê-lo imprensar-me contra a parede. A bocarra rosnante, espumante, estava a apenas algumas polegadas de minha garganta, e o corpo possante do animal estremecia de fúria selvagem. Por pouco se engasgava, espumando e cuspindo, enquanto seu dono incitava-o com ordens ásperas e incitações brutais. A tal ponto se aproximava que seu hálito morno e úmido bafejava-me a face.
JERZY KOSINSKI. O Pássaro Pintado.
******

Poema de Darlan

Nada que magoe
por menos, que não se cumpra
nas dilacerações, que não consuma
as paredes e o sol nas unhas
pintado, a rua numa boca
gritando, não, nem um pouco de ar
para a calma das mãos,
e nem mesmo desejar a boca
excelsa sobre o meu total, emerso
silêncio. Nada.
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Recomendo:
Manoel Donini: blogue

Antônio Nogueira: site

Foto:
enviada por Iara, que a recebeu de Tattyana (EUA)

Comentários

  1. adorei sua visita. e o seu blog tb. logo se vc q vc é uma pessoa sensível. um beijinho e volte sempre.

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  2. Obrigado, Luciana, tanto pela visita, quanto pelas palavras generosas. A casa está aberta a todos.
    Um abraço. Darlan.

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  3. Lí o bonito poema e, sobre o texto mais acima pensei o seguinte;Muitos ainda fazem como Garbos, mas Darlan generosamente faz o contrario, recomenda-nos. Fiquei contente e grato, breve darei a reciprocidade.
    Um abraço.

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  4. Caro Donini,
    no duro... ri um bocado com a alusão ao "glorioso Garbos, mais malvado do que a Malvadeza".
    A casa é sua, caro amigo.
    Um abraço. Darlan.

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alto & baixo

Barreiro - BELO HORIZONTE, MG * Todos fogem, querem mudança em sua mesmice, novos degraus com textos e tetos, de um modo ou de outro, sentem que a vida é minuto, frutas murcham depressa, animais logo estão cada vez mais sisudos e mal-humorados, e assim chegam às monstrópoles, às suicidades. * Darlan M Cunha  

calmaria

  Uma calmaria aparente dentro da aldeia, sobre ela uma zanga de nuvens - mas não se deve levar nuvens a sério, por inconstantes - sina - e levianas feito dunas e seixos escorrendo e escorregando daqui pra lá, de lá para além-lá, feito gente nos seus melhores e piores dedos, entraves, momentos, encontros e despedidas. Um gotejo aqui e ali, mas outro tipo de gotejo num lugar da casa vai trazendo à cena o verso do português Eugênio de Andrade (Prêmio Camões 2001), decifrando a lágrima: " a breve arquitetura do choro ." Darlan M Cunha

<ímã>

A aldeia tem suas travas, e também seus vasos comunicantes, ou veias, a aldeia pulsa igual e diferente todos os dias, igual e diferente, atraindo todos os graus da vontade consciente e da curiosidade, as aldeias transformaram-se em monstrópoles e suicidades, e porque vieram para ficar, elas verão o fim do mundo. Darlan M Cunha