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Assim somos nós, os malvados: corroemos pela base a base que nos corroeu, desde os primeiros tempos, desde os primeiros acordes dissonantes.




Ao quarto dia, os malvados tornaram a aparecer. Vinham chamar ao pagamento do imposto de serviço as mulheres da segunda camarata, mas detiveram-se um momento à porta da primeira a perguntar se as mulheres daqui já estavam restabelecidas dos assaltos eróticos da outra noite, Uma noite bem passada, sim senhores, exclamou um deles lambendo os beiços, e outro confirmou, Estas sete valeram por quatorze, é certo que uma não era grande coisa, mas no meio daquela confusão quase não se notava, têm sorte estes gajos, se são homens o bastante para elas, Melhor que não sejam, assim elas levarão mais vontade. Do fundo da camarata, a mulher do médico disse, Já não somos sete, Fugiu alguma, perguntou a rir um dos grupo, Não fugiu, morreu, Ó diabo, então vocês terão de trabalhar mais na próxima vez, Não se perdeu muito, não era grande coisa, disse a mulher do médico.

JOSÉ SARAMAGO. Ensaio Sobre A Cegueira (P.183)
*******

poema de Darlan

A CASA

Uma casa nada engraçada, de um viver

estranho pelo que só movia seus ângulos

quando vinham tempestades, noiva

de intempéries é que não parecia

ao mover com cautela os membros

em busca de algo maior do que as telhas

ou a sombra

de algum medo que ainda

persistia na casa nada engraçada, sem alusões,

até o dia em que se soltou

de seus pregos, arcadas e pilares, enfim,

de tudo o que fazia com que ela fosse só

casca, sombra sem o correspondente raio.

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foto: Darlan



Comentários

  1. Já desisti de ler esse português. O meu português da vez agora é José Eduardo Agualusa :)

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  2. Primeira coisa: Mudou o template?? Tá tão diferente por aqui...

    Eu preciso ler esse Ensaio Sobre a Cegueira! Muita gente já disse que é ótimo.

    A casa caiu? :D

    inté mais!!

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  3. Pouquinha mudança, ZANA.
    Quanto ao livro, eu já lhe havia falado acerca dela.
    Agora, quanto à casa, se não caiu, há fissuras largas.

    Um abraço.

    ResponderExcluir

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alto & baixo

Barreiro - BELO HORIZONTE, MG * Todos fogem, querem mudança em sua mesmice, novos degraus com textos e tetos, de um modo ou de outro, sentem que a vida é minuto, frutas murcham depressa, animais logo estão cada vez mais sisudos e mal-humorados, e assim chegam às monstrópoles, às suicidades. * Darlan M Cunha  

calmaria

  Uma calmaria aparente dentro da aldeia, sobre ela uma zanga de nuvens - mas não se deve levar nuvens a sério, por inconstantes - sina - e levianas feito dunas e seixos escorrendo e escorregando daqui pra lá, de lá para além-lá, feito gente nos seus melhores e piores dedos, entraves, momentos, encontros e despedidas. Um gotejo aqui e ali, mas outro tipo de gotejo num lugar da casa vai trazendo à cena o verso do português Eugênio de Andrade (Prêmio Camões 2001), decifrando a lágrima: " a breve arquitetura do choro ." Darlan M Cunha

<ímã>

A aldeia tem suas travas, e também seus vasos comunicantes, ou veias, a aldeia pulsa igual e diferente todos os dias, igual e diferente, atraindo todos os graus da vontade consciente e da curiosidade, as aldeias transformaram-se em monstrópoles e suicidades, e porque vieram para ficar, elas verão o fim do mundo. Darlan M Cunha