Pular para o conteúdo principal
FÓSFORO ENXOFRE VENENO PECADO... CERTOS ENTORNOS










ENTORNO


Meu colar é para o dia em que a solidez da solidão esbarrar

nos próprios tropassos, nos próprios destrossos, não é para

qualquer dia, não, talvez eu o solte no dia de reis

ainda que mambembes, falidos ou não,

do pé e da cabeça doentes, não importa, meu calor

tem coisas que nem a mais vã misantropia pode

conceber, creia que

meu calor eu o confeccionei sempre sob as estrias de uma longa

muralha, frio e fome já tinham ficado

para trás entre os meus pequenos desejos

humanos, sim, eu já era mais

que humana


mente, meu ofício de ser fosforescente, de ser enxofre e fósforo

misturou-se ao ofício dos ofídios, venenosos

ou não, liguei-me aos ofídios (mas não ao que as malditas

escrituras vem mentindo há séculos, não, não

me servem muros de lamentações, virilhas rotas de suratas,

não me servem de modo algum, sendo eu

o abcesso fechado, o queijo

melhor curado, o amistoso cafezinho (pra quem ?


pra quem bem o mereça).


Sem mandar recado, sou do pecado

direto, vil rotor e motor, pinto e bordo, cobro caro a minha sina

de mulher, meu salário do medo

ousa dizer algo ao crime, sussurra nos ombros

e nos ovos dele quanto nos óvulos d seu sinônimo,

ou seja, a Cabal Assimetria.


DARLAN M CUNHA

Foto: ANA DIDI (FLICKR)

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Tu te lembras, sim... Contos da minha casa - 5 Uma avó de uma amiga minha completou noventa anos – eu disse uma avó porque, afinal, todos temos mais de duas avós -, e as cantigas de sempre logo se fizeram ouvir, devido ao fato de que não há festa de noventa anos todos os dias, todos os meses, sequer todos os anos, não é mesmo, gracinhas e joões ? Embasado nisso, e embasbacado após ver uma linda foto da festa de aniversário 90 de uma avó de uma amiga minha (ufa !), fiz de conta que era comigo, e revi a minha avó, melhor, uma de minhas avós bem aqui ao lado meu, toda liru-liru , empetacadinha, lindinha e ainda e sempre brabinha que só ela. É... falo da minha avó paterna, cuja graça era Senhorinha, isso mesmo, basbaques, este era o nome dela registrado em cartório: Senhorinha Maria de Jesus. Era baixinha, muito brava, mas só de mentirinha, assim com um ar de Dom Casmurro (parte do livro, porque as partes do livro onde entra a tal da Capitu... isso aí, podem deixar de lado,
FLORES SÉSSEIS, VIDROS E ÁGUAS: CONSTELAÇÃO DE OSSOS 1. O ENCANTAMENTO PELOS MATERIAIS Vidros e águas se entendem, agarram-se uns aos outros como um pensamento bom atrai outro de sua estirpe, como as pedrinhas de um caleidoscópio fazem umas com as outras, ou seja, abraçam-se e soltam-se num emaranhado nunca igual, mas sempre com o intuito de união, sua sina sendo a de viverem unidas, mantendo a própria identidade – o que é cada vez mais difícil, mais improvável entre os humanos. Águas e vidros: água doce e vidro plano, água salgada e vidro temperado, água suja e vidro opaco, água limpa de bica e vidro colorido  de igrejas e bordéis, sim, de tudo se faz canção e caução, e o coração na curva de um fio d’água estalando gotículas nas costas dos lagartos (agora tu sabes a razão do sorriso do lagarto, uma delas), úvula e cio, nonada , tiros que o senhor ouviu... , o rio cheio de mormaço, espelho d’água é a sensação de um rio calmo calmo calmo, tu vais com ele, entras nele

calmaria

  Uma calmaria aparente dentro da aldeia, sobre ela uma zanga de nuvens - mas não se deve levar nuvens a sério, por inconstantes - sina - e levianas feito dunas e seixos escorrendo e escorregando daqui pra lá, de lá para além-lá, feito gente nos seus melhores e piores dedos, entraves, momentos, encontros e despedidas. Um gotejo aqui e ali, mas outro tipo de gotejo num lugar da casa vai trazendo à cena o verso do português Eugênio de Andrade (Prêmio Camões 2001), decifrando a lágrima: " a breve arquitetura do choro ." Darlan M Cunha