Pular para o conteúdo principal




O BUDA SENTADO



O buda sentado não carecia de jogos de azar, mas revirava a memória

rumo à rota da seda, bebendo algo indecifrável, o iluminado olhava de soslaio

a quem ousasse o que não ousava: cometer desatinos, matando mulheres

e filhas (mulheres valiam pouco já àquela época), não, ele não saía de si

a não ser para comer maçãs e praticar a lavoura arcaica de beber um copo

de cólera antes de libidinagens com vacas e ovelhas, saltando cercas

esse pai de profetas e de outros menos virulentos e menos votados, 

sabendo que a sinistra e a destra costumam estranhar-se, pelo que as imergia 

no lodo, sempre atento ao silêncio das possíveis presas, sim, era notório que

o buda sentado já não se bastava a si mesmo, e as más e as boas línguas

atestando que a sua fisionomia denotava anseios bem visíveis em cada folha

sobre a qual estendia a mão com a qual proferia novas e antigas

admoestações ao vício, esquecido do próprio vício de entornar sobre a plebe

seu ralo diário. Há de se convir que o mundo bem fez ao esfolar gautamas.





Texto: Darlan M Cunha

Imagem: espada-samurai-imagem-9-PNG
 


Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

foi uma sensação sem punhos, sem lábios, indício algum de ter existido Quando será que na ocidental sociedade (porque nas outras sociedades, parece, este é um caso perdido, sim, pois nos fazem vê-las, a elas, como casos perdidos. Há sociedades em que as mulheres não têm nem mesmo um nome), repito : quando será que as mulheres não perderão seu nome de solteira após casarem-se - a não ser que o queiram perder, por livre e espontânea vontade, e não pelo arraigado costume de se reconhecer mais esta submissão a que foram e ainda são submetidas perante os homens, costume este que continua roendo-lhes os dias e vazando-lhes as noites ? (DMC) ****** Poema de Astrid Cabral (1936- , Brasil) O FOGO Juntos urdimos a noite mais seu manto de trevas quando as paredes recuam discretas em horizontes de além-cama e num espaço de altiplano rolamos nossos corpos bravios de animais sem coleira e juntos acendemos o dia em cachoeiras de luz com as centelhas que nós seres primitivos forjamos com a pedra las...

calmaria

  Uma calmaria aparente dentro da aldeia, sobre ela uma zanga de nuvens - mas não se deve levar nuvens a sério, por inconstantes - sina - e levianas feito dunas e seixos escorrendo e escorregando daqui pra lá, de lá para além-lá, feito gente nos seus melhores e piores dedos, entraves, momentos, encontros e despedidas. Um gotejo aqui e ali, mas outro tipo de gotejo num lugar da casa vai trazendo à cena o verso do português Eugênio de Andrade (Prêmio Camões 2001), decifrando a lágrima: " a breve arquitetura do choro ." Darlan M Cunha

alto & baixo

Barreiro - BELO HORIZONTE, MG * Todos fogem, querem mudança em sua mesmice, novos degraus com textos e tetos, de um modo ou de outro, sentem que a vida é minuto, frutas murcham depressa, animais logo estão cada vez mais sisudos e mal-humorados, e assim chegam às monstrópoles, às suicidades. * Darlan M Cunha