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COM LICENÇA POÉTICA

Quando nasci um anjo esbelto,
desses que tocam trombetas, anunciou:
vai carregar bandeira.
Cargo muito pesado pra mulher,
esta espécie ainda envergonhada.
Aceito os subterfúgios que me cabem,
sem precisar mentir.
Não sou tão feia que não possa casar,
acho o Rio de Janeiro uma beleza e
ora sim, ora não, creio em parto sem dor.
Mas, o que sinto escrevo. Cumpro a sina.
Inauguro linhagens, fundo reinos
(dor não é amargura).
Minha tristeza não tem pedigree,
já a minha vontade de alegria,
sua raiz vai ao meu mil avô.
Vai ser coxo na vida, é maldição pra homem.
Mulher é desdobrável. Eu sou.

ADÉLIA PRADO. Bagagem.
*****

Tela: TÂNIA FILIPPO 

Comentários

  1. Grande lembrança. Adoro a despretensão aguda de Adélia Prado.

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  2. Muito obrigado, PAULO,

    pela visita e pelo comentário.

    Há anos, eu estive na Rua Ceará, em Divinópolis, com a Adélia, que me deu dois dos livros dela - O Coração Disparado, e Soltem Os Cachorros. Eu já tinh o primeiro livro dela: BAGAGEM. Uma pessoa alegre, um sorriso encantador, enfim, uma pessoa de fácil conversa. Uma casa confortável, mineiramente sadia, sossegada mesmo.

    Sim. ela é uma grande poetisa (não escrevo no masculino, embora seja a tônica de tantos analfabetos e "críticos" e "mestres do idioma" assim dizerem: A POETA. Tolices.

    Novamente, grato. A Casa é sua. A propósito, PALIAVANA, que é o título do meu Blog -, é uma orquídea, típica da região da Serra do Cipó, MG (mas não apenas de lá). Uma lindura, estonteante.

    DARLAN

    ResponderExcluir
  3. A propósito, PAULO, adicionei seu linque na guia "BLOGUE COM JEITO", aqui mesmo no PALIAVANA4.

    Um abraço.
    DARLAN

    ResponderExcluir

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alto & baixo

Barreiro - BELO HORIZONTE, MG * Todos fogem, querem mudança em sua mesmice, novos degraus com textos e tetos, de um modo ou de outro, sentem que a vida é minuto, frutas murcham depressa, animais logo estão cada vez mais sisudos e mal-humorados, e assim chegam às monstrópoles, às suicidades. * Darlan M Cunha  

calmaria

  Uma calmaria aparente dentro da aldeia, sobre ela uma zanga de nuvens - mas não se deve levar nuvens a sério, por inconstantes - sina - e levianas feito dunas e seixos escorrendo e escorregando daqui pra lá, de lá para além-lá, feito gente nos seus melhores e piores dedos, entraves, momentos, encontros e despedidas. Um gotejo aqui e ali, mas outro tipo de gotejo num lugar da casa vai trazendo à cena o verso do português Eugênio de Andrade (Prêmio Camões 2001), decifrando a lágrima: " a breve arquitetura do choro ." Darlan M Cunha

<ímã>

A aldeia tem suas travas, e também seus vasos comunicantes, ou veias, a aldeia pulsa igual e diferente todos os dias, igual e diferente, atraindo todos os graus da vontade consciente e da curiosidade, as aldeias transformaram-se em monstrópoles e suicidades, e porque vieram para ficar, elas verão o fim do mundo. Darlan M Cunha