07/03/2014






         Não disse nada durante o estupor geral diante das chamas, não arredou o pé do lugar de onde assistia o ocaso de uma era, ruindo sem sal, açúcar, água e óleo, até porque nada mais era compartilhado naquela casa; não eram ingredientes comuns à mesa de quantos lá viveram o tempo necessário para se desconhecerem por completo, sim, em tudo isso e em algo mais aquela pessoa pensava, de pé dentro dela mesma, muda, enquanto o fogo se cumpria mais alto do que o estupor geral, ambos - fogo e criatura - alheios a algum escárnio grosseiro, aos ventos da pressa imobiliária, às cantilenas judiciais.

         Não disse nada enquanto o fogo torneava as pernas do espanto, e nem mesmo depois de silenciadas as últimas brasas, varridas as cinzas, e de delimitados o espaço pertencente à família, e o espaço do passeio público. Só ele sabia quantos foram mortos lá dentro.


         

Texto: Darlan M Cunha
Imagem / Arte: fiammata di flamenco # fire

06/02/2014

biblioburro

         Nenhum entrave eu tive para alcançar voos e muros a partir dos livros - quero dizer, sempre há dificuldades dentro de um livro, por exemplo: belezas inacreditáveis, e rudezas contra as quais é preciso aprender a ter estômago forte, aprendendo com estes mesmos dois lados da vida a ter bom equilíbrio para discernir entre o que nos convém e não nos convém. O fato é que, quando se acha que as coisas estão apáticas, que a engrenagem está emperrada, eis que por alguma fresta inesperada aparecem outros convites para distendermos pernas e braços rumo à foz da vida.


Texto: Darlan M Cunha
Foto trazida daqui: http://fernandajimenez.com/



20/11/2013





Tenho um amigo e vizinho de nome Anatanael, cuja insônia não o deixa em paz, sendo ainda mais teimosa do que a de outros, tanto assim que todos os dias por volta das duas da manhã ele vai chamar o padeiro Mocréia, sim, acredite se puder, ele vai chamar o padeiro da pequena cidade, e os dois vão caminhando e jogando conversa fora, através dos poucos quarteirões até a padaria. Ele faz isso todos os dias, menos naqueles em que a ressaca passa dos limites, ou nos quais ele vai até ali perto, ou seja, vai até Belo Horizonte, e fica por lá um dia, mas não dois, na cidade de cujos moradores ele diz “pobres coitados, ardem de febre pela pressa."


Texto: Darlan M Cunha

06/11/2013





O BUDA SENTADO



O buda sentado não carecia de jogos de azar, mas revirava a memória

rumo à rota da seda, bebendo algo indecifrável, o iluminado olhava de soslaio

a quem ousasse o que não ousava: cometer desatinos, matando mulheres

e filhas (mulheres valiam pouco já àquela época), não, ele não saía de si

a não ser para comer maçãs e praticar a lavoura arcaica de beber um copo

de cólera antes de libidinagens com vacas e ovelhas, saltando cercas

esse pai de profetas e de outros menos virulentos e menos votados, 

sabendo que a sinistra e a destra costumam estranhar-se, pelo que as imergia 

no lodo, sempre atento ao silêncio das possíveis presas, sim, era notório que

o buda sentado já não se bastava a si mesmo, e as más e as boas línguas

atestando que a sua fisionomia denotava anseios bem visíveis em cada folha

sobre a qual estendia a mão com a qual proferia novas e antigas

admoestações ao vício, esquecido do próprio vício de entornar sobre a plebe

seu ralo diário. Há de se convir que o mundo bem fez ao esfolar gautamas.





Texto: Darlan M Cunha

Imagem: espada-samurai-imagem-9-PNG
 


24/10/2013

Maria Sylvia Cordeiro. Menina lendo. Óleo sobre tela: 80 x 100



          Um vizinho meu, escritor bissexto que, na opinião de alguns, é apenas outro que desistiu do dinamismo edificante, reside do lado sul da ponte da ponte, de onde inalamos o primeiro espanto do dia. Ele me disse que o fato de ter escrito sobre um assunto inusitado - romance de órfão -, segundo ele, o faz manter-se mais a postos devido a que o livro trata da história de um natimorto, do qual naturalmente ele sabe tanto quanto o resto da comunidade, ou seja: não sabe nada; mas mesmo assim foi capaz de inventar dados sobre este alguém, ele diz, sempre satírico quando o assunto é sociedade, até porque não há como fugir do sol, segundo sua cartilha ou evangelho.


Texto: Darlan M Cunha

13/09/2013

Carlos Drummond de Andrade (farmacêutico) e Pedro Nava (médico)



Do que se tem, ao que se almeja


Não te metas assim contra a força
de nenhum santo, não te desregres  
pelas entranhas disso e daquilo, 
mesmo que sobre ti as regras do jogo
ponham nome ou sintoma
não previsto. Eis que a simpatia
para o santo esfrega na cara dele
perdas e danos, ida sem volta
pela estrada - surda às batidas de novo
querer -, cabendo ali ainda e sempre 
o nó dos soluços, o pó das soluções.


Foto e poema: Darlan M Cunha