13 Julho 2009

"Você, meu amigo de fé, meu irmão, camarada..."





















Diga-se isto, diga-se aquilo a respeito de mim, o que sei é que continuo sendo alvo de sonhos, de versos e controvérsias, sim, sou o mono, macaco, mico, símio, figura simiesca, sou (no caso desta foto) um mico-estrêla, e me vejo assim na selva ou mesmo num parque enorme, sempre lidando com as coisas do cotidiano, ecos inerentes a um verdadeiro morador da selva, da mata atlântica: gente. Ah, gente é bicho até legal, mas é um bicho muito aborrecido e aborrecedor. Vê: ele - o bicho-homem - quer rir, e o que faz ? Me chama, me dá um naquinho de pão, e acha o máximo, e pensa que EU também acho o MÁCSIMO, por ficar bem beliscando na mão dele, do homem fabricante de desfolhantes químicos (meus primos do Laos, do Camboja e do Vietnam ficaram sem galhos onde fazerem farra, namorar, voar de galho em galho, fornicar, gritar, amar), e eu não me esqueço disso, mas sempre dou desconto para os humanóides, figurinhas difíceis, dignas de que se olhe por elas, coitadinhas.

Sou, sim, primo do homem e da mulher, mas me sinto envergonhado diante e sob as estrelas e os planetas, por causa deste equivocado parentesco, digamos... por este "erro da Natureza "(é um erro contra mim). Ó... a verdade é que, por mais que nós, micos, macaqueantes ou macaquídeos, nos esforcemos para termos uma convivência sadia com os humanos, sempre os homens e as mulheres nos avacalham o dia, riscam do mapa o nosso solriso. Mas vamos levando.

Venham visitar-nos, mas venham como homem e mulher, nada de graçolas. Aliás, venham visitar-nos como MA-CA-COS que vocês são.

Texto: DARLAN M CUNHA
FOTO: CONCEIÇÃO COSTA

08 Julho 2009

Da mesa da manhã para o mundo
















RUBIÁCEA


O amarfanhado colete já prestes a ir

ao dia, levemente impregnado

do filho das arábias que em Minas

brotou e se cumpriu

à mesa onde o olho da samambaia espreita

algum brilho possível no amarfanhado colete

à espera de que o rosto o seu dono

descubra.



Foto e poema: Darlan M Cunha


20 Junho 2009

E se não dizemos nada...













DUAL: PAREDES DE FLORES, TETO SÓ CORES, BAÚ DE DESTROSSOS


O teto está bailando em compasso

de versos e canseiras sobre a cama

na qual, sozinhos


no mundo, os amantes são raízes

soltas, mas também lá está o pó de outras

terras há tempos desprendido e há tempos

pousado no agora trêmulo teto

de canseiras sem nexo, pó


bem pousado sobre o apartamento

anexo, sim, é deitado que a gente vê melhor

o pior e o melhor do mundo.



Poema: DARLAN
Foto: Jeff Widener

02 Junho 2009

TRAMAS & TRAMAS DEPOIS, INESPERADO FINAL















VIDRO


o vidro entre mil sons, em todos

os momentos da cidade está

pela vontade particular

torna-se espelho

diante do qual se fala, com ou sem

desvios, todo ele só teu ou meu,

assim é o vidro em dois mil e nove

cacos partido como se parte o amor

em mil destrossos,

assim é o vidro da casa

que o tempo, às vezes, reduz a beijo partido



DARLAN M CUNHA

IMAGEM


22 Maio 2009

PALAVRAS & SILÊNCIOS

















CUANDO YA NO IMPORTE


O Assombro vive de suas cordas tensionadas, vive

o Espanto tirando sombras de algum instrumento,

abrindo mentações para o novo, o que para ti

e para os teus importa: o aço das facas, sua beleza

de corte sem sutura, ouça

a mulher que reclama

não teres mais mímese nem simbiose pelas quais

os dias eram sem nome e sem data, vê: ainda

o teor de sal há de ser revisto,

o açúcar regrado da sociologia que te ampara

já é gasto, e assim

melhor será abrir com as dobras da música o acervo

entre os convivas, a mesa bem diluída,

o peixe (e a sua simbologia)

à espera.


DARLAN M CUNHA

Foto: catkeyboard: JERSEYBLOGS



15 Maio 2009


ALGO FALTA













AS BORDAS


Sentir o mundo girar como quem vem da feira ou de festa de arromba,

do jeito que o diabo gosta, de pernas pro ar está

o mundo com a sua roda viva, a qual se pode pressentir

quando vai entrar em nova

febre, e o melhor é afastar-se e contemplar seus argumentos

sempre afeitos a algum interesse maior, dizem os que amam

o mundo,

mas quem detesta o mundo que lhe é imposto

diz que rir já foi o melhor remédio, e assim é que é melhor evitar

um mergulho

na inconsistência geral, na demência, na mesma demência

onde vivo com os dedos nas bordas do seu recado: o Imponderável.


DARLAN M CUNHA

08 Maio 2009

AS COISAS

















NUVENS COMO PORTÕES DE ENTRADA NO IMAGINÁRIO


E fico aqui, com meu nariz entre os vidros da janela, medindo a temperatura, lembrando-me do dito popular: “para quem sabe ler, um pingo é letra”, mas como ler o alfabeto de quem não o escreve de forma clara, que o faz por meandros tortuosos, um alfabeto de anamorfoses, ou de deformidades através do espelho ? O nariz arde, as bochechas infladas querem a rua, as pernas exijem escavar longe de casa, bem de dentro do imaginário vem a senha com que abrir a onda de calor rumo a ti.

Foto e texto: DARLAN

29 Abril 2009

Virgem não consegue sócias para o clube (COM VÍDEO)











ATRÁS DO MURO HÁ GIRASSÓIS DO ESPANTO ?


Parece que a Showciedade, a Zarolha, não se cansa mesmo de eleger teorias e teoremas, verbos e adjetivações mirabolantes, nem do uso constante e crescente da partícula apassivadora “se” (quem tanto a repete deixa logo claro que não sabe bulufas ou patavina a respeito do que fala, ou vomita, como se diz). Embora teóricamente esteja ela num patamar de livres dizeres e pensamentos, uma notícia como esta de hoje, 29-04-09, dada pelo jornal português Correio da Manhã, dando conta de que uma moça de 26 anos, Margarida Menezes, ainda é virgem, e que ela há tempos procura outras para fundarem uma espécie de “clube”, não deveria, segundo os melhores preceitos de uma sociedade que se queira avançada em seu respeito, melhor ainda, em sua compreensão da medida exata das contingências do Outro, sempre aqui ‘teóricamente’ dizendo, não deveria causar estranheza, ser motivo de chacota em toda a Nação, e fora dela.


O Diabo desveste o Gado, e nada de braçadas, com seu nenúfar para cima, rindo.


Se essa moça está querendo aparecer (e isto não importa, porque ela tem o direito de ser e de tentar ser o que ela ainda não é), esse modo de se fazer notar é fichinha, em vista de milhares de estilos nebulosos já consumados & consagrados no mundo todo. Esquecestes ? Let it be. Vamos rir. Os garanhões frustrados de botequim, sobressaltados com a audácia da donzela última (?), penúltima ?, antepenúltima ?, logo dar-se-ão conta de que “é preciso estar atento e forte, não temos tempo de temer a morte”*, como diz a canção, e, assim sendo, envidarão todos os esforços para logo mudarem o status da moça, levando-a à doce realidade do outro lado do muro. Atrás do muro há girassóis do espanto ?


Texto: DMC

***

CORREIO DA MANHÃ, 29-04-2009. Portugal.

VEJA O VÍDEO

GILBERTO GIL. Divino Maravilhoso.



17 Abril 2009

O QUE SINTO AINDA NÃO FOI PERCEBIDO.












AS PORTAS DA PERCEPÇÃO


Abre teus olhos

os poros todos

os membros querem

que estejas de bem

contigo, Ó bípede

ou quadrúpede,

eis o contorno

do teu mundo

dizendo-te

que abras os olhos

e que outra opção

não deves seguir

a não ser deixar abertas

as portas da percepção.


DARLAN

*****

OBS.: Há uns 15 dias baixei esta figura que ilustra o meu poema, mas não consigo me lembrar de onde eu a trouxe; caso você saiba, por obséquio, me informe, para que eu dê o devido crédito.

02 Abril 2009

FÓSFORO ENXOFRE VENENO PECADO... CERTOS ENTORNOS










ENTORNO


Meu colar é para o dia em que a solidez da solidão esbarrar

nos próprios tropassos, nos próprios destrossos, não é para

qualquer dia, não, talvez eu o solte no dia de reis

ainda que mambembes, falidos ou não,

do pé e da cabeça doentes, não importa, meu calor

tem coisas que nem a mais vã misantropia pode

conceber, creia que

meu calor eu o confeccionei sempre sob as estrias de uma longa

muralha, frio e fome já tinham ficado

para trás entre os meus pequenos desejos

humanos, sim, eu já era mais

que humana


mente, meu ofício de ser fosforescente, de ser enxofre e fósforo

misturou-se ao ofício dos ofídios, venenosos

ou não, liguei-me aos ofídios (mas não ao que as malditas

escrituras vem mentindo há séculos, não, não

me servem muros de lamentações, virilhas rotas de suratas,

não me servem de modo algum, sendo eu

o abcesso fechado, o queijo

melhor curado, o amistoso cafezinho (pra quem ?


pra quem bem o mereça).


Sem mandar recado, sou do pecado

direto, vil rotor e motor, pinto e bordo, cobro caro a minha sina

de mulher, meu salário do medo

ousa dizer algo ao crime, sussurra nos ombros

e nos ovos dele quanto nos óvulos d seu sinônimo,

ou seja, a Cabal Assimetria.


DARLAN M CUNHA

Foto: ANA DIDI (FLICKR)