02/03/2012




JÁ É MARÇO


1.
Em março não se prometa nada que fevereiro
não foi capaz de fazer ou desfazer, mesmo enlaçados
por tão breve espaço estes dois meses,
mesmo com respingos do carnaval caindo na semana santa,
melhor é evitar uní-los ou desuní-los por comparações,
melhor é entrar em março com a mente nas águas típicas
dele, com os estímulos que ele necessitará para chegar
a bom termo, entregando a abril os instrumentos
de sua leveza ou do seu peso, e não deixando pelo chão
as peças que não couberam no seu jogo de encaixes
de peças, seu labirinto, seu xadrez com um problemático
ou irrealizado xeque mate, sim, vamos, que março
chama, acendeu já o ar quente do seu balão, vamos
porque o palco há de ser armado, espera.

2.
Neste mês em que ventos sírios ofuscam o horizonte,
e o núcleo de fukushima busca o meu
púbis, avançando sobre outras apreensões,
que fotos de homens e mulheres desaparecidos (herdados
dos meses anteriores) estão no interior de ônibus e trens
do cotidiano, que o show marcado aconteceu,
que políticos deixaram a aliança para candidatarem-se a outro
aspargo, ou arpejo da musa política, neste mês de março
algum tropeço dará cabo de mim, sob a luz
de alguma câmera.

3.
É março, a boca da vizinha é de bom dia, mas não se dá
toda, que não é tempo de intimidades,
e assim ela vai trocando em miúdos a sua passagem
pelo dia. Ficará ela entalada na lata de sardinha
do metropolitano, ou cairá em si
vertendo lágrimas de "nunca mais" a moça cuja boca me fez
bom dia? E porque é março, assuntos de abril
não quero, não pensar no futuro é estilo meu, nada
me faz pensar no futuro, esteja em abril ou em setembro, no golfo
da tailândia ou num beco onde transar drogas.

4.
Já é março, mas nada de esperar setembro para dizer ou cantar
"quando entrar setembro, e a boa nova andar nos campos",
porque março viverá do que março der, e da seiva
dos que o antecederam, nada mais.


Texto: DMC
Arte:

28/02/2012

cria fama e...













THE OSCAR GOES TO…


O artista da fome é um livreto, mas tenho um vizinho que é, ele também, como todos os seus pares, de certa forma, um artista da fome, que sempre está com uma perna quebrada, a outra está luxada, ou com os braços em má situação, ou com um corte no queixo, não fala nada o artista, mas isto é algo antigo nele, porque sempre foi só um fantoche o artista com suas pinceladas, partituras, esculturas, gosta de mostrar que está por dentro das recomendações explícitas e subreptícias de amos e amas: god save the king, god save the queen (more), save the eurotunnel, eurodolar (o país dos dez mil "li" vem aí, vem aí a lavoura de mandarins). Foi nos bailes da vida...

Aqui perto de casa há uma grelha enorme no chão de cada pista da avenida, que não dão vazão à água e, principalmente, aos mil dejetos plásticos, sofás, pneus, portas de casas, tijolos, geladeiras e fogões, sanitários e baús. Tudo é lixo, gente. Voltemos ao artista: gueixa significa artista, mas, convenhamos, artista de requinte, com anos e anos de estudos de música, etiqueta, dança, sim, algo diferente; mas o oscar vai para... Favas Contadas, Armação Ilimitada, Óbvio Ululante.


Texto: DMC
Foto: caroleandjacekbed1

21/02/2012


                                                                                                                                      

FOGUEIRA


viu uma fogueira em cada porta
de um lugar do qual não se lembra,
madeiras e ossos estalavam,
porque delícia pouca é besteira,
porque inferno pouco é bobagem,
o fogo é a estalagem na qual
aqueces a comida, vai contigo
à montanha, recobre de cinzas
tuas pegadas, sim, o viajante viu
fogueiras em cada rua, o rosto e
a bunda da dúvida, o bafo da carne
rasgada e bem temperada, sete
goles de sorrisos com limão
e gengibre, crianças com varas
de marmelo nas mãos, correndo
atrás do próprio riso, correndo
atrás dos pais, de avôs e avós,
ó, a vida é um caracol, espiral
que não se pode desprezar,  
caro amigo, se nenhum de nós
tem ninguém em quem confiar;
então, confiemos em nós mesmos,
pactuemos entre nós mesmos



Poema: DMC
Imagem // Image: (?)

13/02/2012


FROM DIGITAL AGE TO STONE AGE (to wake up or not?)


O meu amigo Opabília tem cinco olhos com os quais preserva-se de um mundo todo ele olhos, mais para malévolos (os do mundo) do que para outra intenção. Expressões como pedra sobre pedra, olho por dente, dente por olho e a educação pela pedrada ele segue-as à risca, segue o tema para jovens enamorados mais de si do que do seu entorno, pelo que está bem longe de mim reprovar-lhe tal atitude, que também eu me previno assim, por sempre escamoteado, espicaçado, mas sou carne nua e crua, e só mesmo um tempero adequado para a ele adequar-me eu mesmo, carne dura, fibra por fibra, carne de pescoço – como diz o povo, embebendo-se ele mesmo numa estopa cheia de combustível de imprevisível ascenção, de ignição destemperada, que o povo vive sua pedra, sua pedreira, sua educação pela pedrada na era digital.



Foto e crônica: DMC

07/02/2012


TURISTA EM VIAS DE


ondas e rochas vivem seu tempo (clausura
ou fobia, catre ou ambivalência: tudo é
anseio), o tempo que lhes dá e tira o vigor
(pensou nisso, debaixo da cascatinha,
no Caraça), ambas sempre lutando contra ele
até se perderem no redemoinho
que faz a rocha ser areal, e a água
evolar-se (mas essa é teimosa: volta)

o tempo também luta contra ele mesmo
sabendo que a rocha hoje granulada
vai no vento a favor do esquecimento

é também um amor numa esquina
antiga (tinha olhos curtos, mas limpos)  
esperando noutros possíveis e impossíveis ângulos


Foto e poema: DMC

01/02/2012


SÍNDROME DE FEVEREIRO


os pés inquietos de fevereiro reviram-se
na lama que os cobre, que é tempo
é tempo de chuva, do que restou dela
em dezembro e janeiro, a cólica feroz
das nuvens nos pés de fevereiro, eis
o assunto do dia nos jornais, mas
outros assuntos logo serão a bola
da vez, porque já é de novo fevereiro,
e só algumas pessoas dão por exato
conta disso: que os cabelos já não são
os mesmos do fevereiro passado,
mais calmos estando talvez
os dedos das mãos, menos motivos
talvez para sorrir tendo as criaturas
do dia e da noite, insones e dorminhocos,
todos tendo nos ombros os fevereiros
que fizeram por merecer, a canção diz:
"não viemos por teu pranto", então, resta ir
aos vinte e nove dias deste mês (há dele
de vinte e oito), e abrir-lhe o leque,
porque fevereiro é a época dos pés
soltarem de um jeito único a sua mania,
sua ânsia anual por folia, que os pés,
em fevereiro, são reis melódicos: adeus,
bigodes da seriedade; adeus, sutiãs
e outras barbaridades de todas as ©idades!


Foto e poema: DMC

27/01/2012


A LAVRA: FOGO


refutando com palavras (por que não
com atos violentos?), lavras
de fogo e água de beber
(envenenada), se causam espécie nos mais e nos menos
favorecidos, melhor é tirar proveito
do silêncio, arguindo no proscênio das ruas
a omissão ferrenha das leis, a ablução diária
numa pia com água suja - que o poema sujo da água
é a sede

Foto e poema: Darlan M Cunha

22/01/2012


O RATO DE BOTAS


resisitir a este ofício meretrício é fava mal contada
que se desconta da letra morta 

da leviandade, letra de próprio punho 
é a necessidade postada numa esquina onde uma antiga porta
de joalheria dá acesso ao rubi do momento
e talvez também de amanhã, e assim o rato de botas sobe os degraus
de sua alegria mesclada com tristeza crônica

lá fora, a cidade e suas armadilhas
para ratos e gatos


Foto e poema: Darlan M Cunha

19/01/2012

ESCULTURA (Aeroporto de Confins // BH, MG, Brasil)


DONA CHUVA


Enfim, após temporada memorável, porque desastrosa, sem igual, Dona Chuva foi a outras paragens, desandar lágrimas noutros páramos, criar pátina noutros monumentos, noutros museus, no telhado de outras igrejas e hospitais, lojas e repartições públicas, sem falar no mofo e no descascado que deixou por aqui, nesta casa de onde vejo duas ruas do mundo – agora cheias de ouro matinal. Enfim, num dia em que estava especialmente absorto, sentado à beira do mundo, vendo e ouvindo o rio das velhas levar troncos e pensamentos, estava especialmente cheio de desânimo, mas recolhi uma lágrima da chuva com o teu semblante nela: sinal de sol à vista.


Foto e texto: Darlan M Cunha

15/01/2012

Alberto Santos Dumont
(Aeroporto de Confins //BH - MG, Brasil)
 

AÉREO


vive em seu labirinto o inventor, metido
em seus parafusos, avesso ao barulho
do mundo, carrega nos ombros
uma pergunta ainda não respondida, sempre
alerta, mesmo quando dorme, mesmo sob insônia, o inventor
sente asas nas mãos, trabalha e retrabalha
nelas, até que outros possam também ter asas
nas mãos e nos pés



Foto e poema: Darlan M Cunha